A grande maioria dos carcinomas da cabeça e pescoço surge a partir de células do revestimento epitelial do trato aerodigestivo superior. A histologia mais comum é ocarcinoma de células escamosas (CCE). Anatomicamente, os cancros de cabeça e pescoço são heterogéneos e surgem na faringe (incluindo nasofaringe, orofaringe e hipofaringe), cavidade oral, cavidade nasal, laringe e esófago cervical. Estes cancros são geralmente agressivos e de difícil tratamento.
Em Portugal existem cerca de 2500 novos casos de cancro da cabeça e pescoço (CCP) todos os anos. A exposição a substâncias cancerígenas representa o principal fator de risco de CCP, dos quais o tabagismo e o consumo de bebidas alcoólicas contribuem para mais de 70% de todos os casos da doença. Outros fatores de risco incluem:

Fumo passivo ;
- Infeção pelo vírus do papiloma humano (HPV);
- Baixo índice de massa corporal(IMC)
- História familiar de cancro
A combinação de uma dieta pobre em vegetais e frutos com um consumo rico em carne, tabaco e álcool pode mesmo levar a um risco 20 vezes superior de cancro oral e da faringe.
As pessoas que sobrevivem a um CCP têm um risco superior de um segundo cancro primário (SCP) naboca ou pescoço, o que infelizmente é muitas vezes fatal. É por isso extremamente importante identificar estratégias que possam diminuir esse risco e aumentar as probabilidades de sobrevivência. Um estudo recente que inclui modelos in vitro, in vivo e em humanos, sugere que extrato de germinados de brócolos poderá ajudar a prevenir recidivas em sobreviventes de CCP .
Esforços anteriores de encontrar fármacos que consigam
prevenir recidivas de CCPnão têm sido bem sucedidos, o que levou investigadores do centro de cancro
UMPC a procurar
soluções quimopreventivas com produtos obtidos a partir de
plantas e seus extratos. Para isso a equipa liderada pela
Dra. Julie Bauman trataram
10 voluntários saudáveis com sumo de fruta misturado com
extrato de germinados de brócolos, rico em
sulforafano. Os voluntários não tiveram efeitos secundários do extrato e
alterações protetoras foram detetáveis nos revestimentos das suas bocas, significando que foi
absorvido pelos tecidos em risco.
De forma a investigarem os efeitos quimiopreventivos do sulforafano nos CCP, os investigadores examinaram o seu impacto na sinalização de NRF2 (proteína que regula a expressão de genes responsáveis por antioxidantes que protegem as células de danos oxidativos) em células epiteliais normais e 4 linhas de células de carcinoma de células escamosas de cabeça e pescoço. Além disso, determinaram os efeitos do sulforafano nas proteínas reguladoras da apoptose, incluindo a STAT3. Estudaram os efeitos quimiopreventivos do sulforafano em modelo animal assim como o estudo-piloto acima descrito.
De acordo com os resultados observados, o sulforafano foi capaz de ativar a sinalização de NRF2, inibir a fosforilação de STAT3 e inibir a formação de tumores orais induzidos por 4NQO. Os resultados deste estudo fornecem a primeira demonstração pré-clínica que o sulforafano protege contra cancro oral induzido por carcinogéneos.
Estes resultados são suficientes para dar início a um estudo clínico que irá recrutar 40 voluntários tratados ao CCP. Estes voluntários irão tomar cápsulas de sementes de brócolos em pó para verificar se tem efeito na prevenção de cancros orais.
Os brócolos fazem parte da família das crucíferas. As
crucíferas pertencem a uma família de vegetais com características únicas, responsáveis pelas suas conhecidas
propriedades quimiopreventivas. Estes vegetais são assim chamados pelo facto de a flor de cada um deles ter pétalas espaçadas simetricamente em forma de cruz. Aquilo que os distingue dos outros vegetais passa por serem uma
fonte privilegiada de uma classe específica de fitoquímicos,
os glicosinolatos. Quando as paredes das suas células se partem, ao serem esmagados ou cortados, dá-se uma reação química através da exposição à
enzima mirosinase que converte estas substâncias em moléculas como os
isotiocianatos (ITC) e indóis.

O
sulforafano forma-se a partir da
glicorafanina, presente em grandes quantidades
nos brócolos. Para que se dê a
reação química que dá origem ao sulforafano, a
glicorafanina tem de entrar em contacto com a
mirosinase, o que acontece quando se
corta, tritura ou esmaga os brócolos. No entanto, outra substância presente nestes vegetais, a
proteína epitioespecificadora (ESP), desvia essa reação dando origem ao
sulforafano nitrila, o qual
não tem valor bioativoconhecido
(Matusheski and Jeffery, 2001). O sulforafano nitrila é o
principal produto da hidrólise da glicorafanina. Os brócolos e outros vegetais da espécie
Brassica oleraceaproduzem nitrilas, o que já não acontece com outros membros das brássicas, tais como o
rábano, a mostarda branca e a raíz-forte, as quais só formam
isotiocianatos (Matusheski et al., 2004).

A
forma de preparar os brócolos e outras crucíferas, tem um
grande impacto sobre a presença e a biodisponibilidade destes fitoquímicos. Os glicosinolatos, precursores destas substâncias bioativas, são
sensíveis ao calor e forma de confeção. Basta
cozinhar em microondas durante
5 minutos para haver uma
perda de 74% na concentração de glicosinolatos nos brócolos.
Cozer em água durante
3 minutos resulta numa
perda de 55,3% e de cerca de
18,6% de glicosinolatos a libertarem-se para a água. Por outro lado,
cozer a vapor durante
3 minutos permitiu manter intactos
cerca de 97,7% dos glicosinolatos
(Vallejo et al., 2002).

A
mirosinase, enzima fundamental para a formação de
sulforafano, é também
sensível ao calor. Cozinhar as crucíferas
antes de permitir a hidrólise dos glicosinolatos resulta numa
perda significativa desses componentes e todos os
benefícios associados. Uma das estratégias passa por consumir
crucíferas cruas. No entanto, como vimos antes, se cortamos ou mastigamos
brócolos crus, por causa da presença de
ESP, obtemos maior contentração de
sulforafano nitrila. Uma vez que a ESP também é
sensível ao calor, sendo
mais sensível do que a mirosinase, quando aquecemos os brócolos a
60 graus durante
5 a 10 minutos, desativamos a ESP
sem desativar a mirosinase, o que resulta na formação de
sulforafano (Matusheski et al., 2004).

Curiosamente, a mirosinase presente nos
germinados de brócolos mostram ter
maior resistência ao calor do que os brócolos maduros
(Matusheski et al., 2004). Mesmo quando chegamos a temperaturas como os
100 graus, obtemos sulforafano, o que significa que se trata de uma forma mais
eficaz e prática de o fazer. Além disso, os germinados têm entre
20 a 50 vezes mais glicosinolatos do que brócolos maduros
(Fahey et al., 1997). A
ESP nos germinados de brócolos tem o seu pico de atividade no
2º dia de germinação e diminui no
5º dia, pelo que haverá vantagem em
colher os germinados só a partir desse dia
(Williams et al., 2008).
Existem também
outras formas de garantirmos uma
maior formação de sulforafano a partir de brócolos maduros.
Cozinhar a vapor durante
3 minutos, garantindo que não cortamos as flores antes de os cozinharmos, permite a
formação de sulforafano, evitando o sulforafano nitrila
(Wang et al., 2012).
Outra das formas consiste em
cozer a vapor os brócolos maduros inteiros durante o tempo que se queira e acrescentar no fim
sementes de mostarda em pó, uma vez que estas são uma fonte estável de
mirosinase (Ghawi et al., 2013). Também é possível
combinar na mesma refeição brócolos cozidos com
crucíferas cruas, como couve roxa, rúcula, rabanete, agrião ou outros. Uma das brássicas mais resistentes ao calor é o
rábano Daikon. A mirosinase contida na raíz de rábano Daikon tem
maior resistênciaao calor, existindo formação de sulforafano mesmo quando aquecida a
125 grausdurante
10 minutos (Dosz and Jeffery, 2013).

Embora a
forma mais eficaz de se obter sulforafano a partir de brócolos seja garantindo que exista
mirosinase disponível para a hidrólise dos glicosinolatos, o
glicorafano pode ser em parte convertido em sulforafano
no intestino grosso pela microbiota. Cerca de
10 a 20% de metabolitos de sulforafano podem ser encontrados na urina depois de se ingerir brócolos
sem mirosinase, apenas pela
ação das bactérias presentes no intestino grosso
(Shapiro et al., 1998).