quarta-feira, 29 de junho de 2016

Germinados de brócolos poderão prevenir recidivas de cancros da cabeça e pescoço

by Gabriel Mateus
HNC
A grande maioria dos carcinomas da cabeça e pescoço surge a partir de células do revestimento epitelial do trato aerodigestivo superior. A histologia mais comum é ocarcinoma de células escamosas (CCE). Anatomicamente, os cancros de cabeça e pescoço são heterogéneos e surgem na faringe (incluindo nasofaringe, orofaringe e hipofaringe), cavidade oral, cavidade nasal, laringe e esófago cervical. Estes cancros são geralmente agressivos e de difícil tratamento.

Em Portugal existem cerca de 2500 novos casos de cancro da cabeça e pescoço (CCP) todos os anos. A exposição a substâncias cancerígenas representa o principal fator de risco de CCP, dos quais o tabagismo e o consumo de bebidas alcoólicas contribuem para mais de 70% de todos os casos da doença. Outros fatores de risco incluem:
  • CigaretteSmoke-Vs-Ozone
    Fumo passivo ;
  • Infeção pelo vírus do papiloma humano (HPV);
  • Baixo índice de massa corporal(IMC) 
  • História familiar de cancro 
De acordo com o Consórcio  Epidemiológico Internacional de Cancro da Cabeça e Pescoço(INHANCE), poderão existir outros fatores de risco relacionados com alimentação:
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    O consumo de vegetais(excluindo batatas) está associado a uma diminuição de 34% no risco de CCP;
  • O consumo de saladas mais de7 vezes por semana está associado a um risco inferiorde CCP;
  • O consumo de batata está associado a um aumento de risco em 24%, especialmentebatatas fritas;
  • O consumo de fruta está associado a uma diminuição de 48% no risco de CCP, especialmente citrinos, maçãs e pêras;
  • As carnes vermelhas estão associadas a um aumento de 40% e as carnes processadas de 37% no risco de CCP;
  • O consumo de ovos está associado a um aumento de 44% no risco de CCP.
  • O consumo de alho está associado a uma diminuição de 26% no risco de CCP ;
  • O consumo de cebola está associado a uma diminuição de 31% no risco de cancro da laringe;
  • O consumo de alimentos ricos em vitamina E está associado a uma diminuição de 41% no risco de cancro oral e da faringe e 33% no risco de cancro da laringe;
  • O consumo de alimentos ricos em carotenóides está associado a umadiminuição de 39% no risco de cancro oral, da faringe e da laringe ;
  • O consumo de alimentos ricos em vitamina C está associado a uma diminuição de 46% no risco de cancro oral e da faringe e 48% no risco de cancro da laringe .
A combinação de uma dieta pobre em vegetais e frutos com um consumo rico em carne, tabaco e álcool pode mesmo levar a um risco 20 vezes superior de cancro oral e da faringe.
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As pessoas que sobrevivem a um CCP têm um risco superior de um segundo cancro primário (SCP) naboca ou pescoço, o que infelizmente é muitas vezes fatal. É por isso extremamente importante identificar estratégias que possam diminuir esse risco e aumentar as probabilidades de sobrevivência. Um estudo recente que inclui modelos in vitro, in vivo e em humanos, sugere que extrato de germinados de brócolos poderá ajudar a prevenir recidivas em sobreviventes de CCP .

Esforços anteriores de encontrar fármacos que consigam prevenir recidivas de CCPnão têm sido bem sucedidos, o que levou investigadores do centro de cancro UMPC a procurar soluções quimopreventivas com produtos obtidos a partir de plantas e seus extratos. Para isso a equipa liderada pela Dra. Julie Bauman trataram 10 voluntários saudáveis com sumo de fruta misturado com extrato de germinados de brócolos, rico em sulforafano. Os voluntários não tiveram efeitos secundários do extrato e alterações protetoras foram detetáveis nos revestimentos das suas bocas, significando que foiabsorvido pelos tecidos em risco.
De forma a investigarem os efeitos quimiopreventivos do sulforafano nos CCP, os investigadores examinaram o seu impacto na sinalização de NRF2 (proteína que regula a expressão de genes responsáveis por antioxidantes que protegem as células de danos oxidativos) em células epiteliais normais e 4 linhas de células de carcinoma de células escamosas de cabeça e pescoço. Além disso, determinaram os efeitos do sulforafano nas proteínas reguladoras da apoptose, incluindo a STAT3. Estudaram os efeitos quimiopreventivos do sulforafano em modelo animal assim como o estudo-piloto acima descrito.
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De acordo com os resultados observados, o sulforafano foi capaz de ativar a sinalização de NRF2, inibir a fosforilação de STAT3 e inibir a formação de tumores orais induzidos por 4NQO. Os resultados deste estudo fornecem a primeira demonstração pré-clínica que o sulforafano protege contra cancro oral induzido por carcinogéneos.
Estes resultados são suficientes para dar início a um estudo clínico que irá recrutar 40 voluntários tratados ao CCP. Estes voluntários irão tomar cápsulas de sementes de brócolos em pó para verificar se tem efeito na prevenção de cancros orais.
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Os brócolos fazem parte da família das crucíferas. As crucíferas pertencem a uma família de vegetais com características únicas, responsáveis pelas suas conhecidas propriedades quimiopreventivas. Estes vegetais são assim chamados pelo facto de a flor de cada um deles ter pétalas espaçadas simetricamente em forma de cruz. Aquilo que os distingue dos outros vegetais passa por serem uma fonte privilegiada de uma classe específica de fitoquímicos, os glicosinolatos. Quando as paredes das suas células se partem, ao serem esmagados ou cortados, dá-se uma reação química através da exposição à enzima mirosinase que converte estas substâncias em moléculas como os isotiocianatos (ITC) e indóis.
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O sulforafano apresenta várias propriedades importantes na proteção contra o cancro,tais como:
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sulforafano forma-se a partir da glicorafanina, presente em grandes quantidades nos brócolos. Para que se dê a reação química que dá origem ao sulforafano, a glicorafanina tem de entrar em contacto com a mirosinase, o que acontece quando se corta, tritura ou esmaga os brócolos. No entanto, outra substância presente nestes vegetais, a proteína epitioespecificadora (ESP), desvia essa reação dando origem ao sulforafano nitrila, o qual não tem valor bioativoconhecido (Matusheski and Jeffery, 2001).  O sulforafano nitrila é o principal produto da hidrólise da glicorafanina. Os brócolos e outros vegetais da espécie Brassica oleraceaproduzem nitrilas, o que já não acontece com outros membros das brássicas, tais como orábano, a mostarda branca e a raíz-forte, as quais só formamisotiocianatos (Matusheski et al., 2004).
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forma de preparar os brócolos e outras crucíferas, tem um grande impacto sobre a presença e a biodisponibilidade destes fitoquímicos. Os glicosinolatos, precursores destas substâncias bioativas, são sensíveis ao calor e forma de confeção. Basta cozinhar em microondas durante 5 minutos para haver uma perda de 74% na concentração de glicosinolatos nos brócolos. Cozer em água durante 3 minutos resulta numa perda de 55,3% e de cerca de 18,6% de glicosinolatos a libertarem-se para a água. Por outro lado, cozer a vapor durante 3 minutos permitiu manter intactos cerca de 97,7% dos glicosinolatos (Vallejo et al., 2002).

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mirosinase, enzima fundamental para a formação de sulforafano, é também sensível ao calor. Cozinhar as crucíferas antes de permitir a hidrólise dos glicosinolatos resulta numa perda significativa desses componentes e todos os benefícios associados. Uma das estratégias passa por consumir crucíferas cruas. No entanto, como vimos antes, se cortamos ou mastigamos brócolos crus, por causa da presença de ESP, obtemos maior contentração de sulforafano nitrila. Uma vez que a ESP também é sensível ao calor, sendo mais sensível do que a mirosinase, quando aquecemos os brócolos a 60 graus durante 5 a 10 minutos, desativamos a ESP sem desativar a mirosinase, o que resulta na formação de sulforafano (Matusheski et al., 2004).
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Curiosamente, a mirosinase presente nos germinados de brócolos mostram ter maior resistência ao calor do que os brócolos maduros (Matusheski et al., 2004). Mesmo quando chegamos a temperaturas como os 100 graus, obtemos sulforafano, o que significa que se trata de uma forma mais eficaz e prática de o fazer. Além disso, os germinados têm entre 20 a 50 vezes mais glicosinolatos do que brócolos maduros (Fahey et al., 1997). A ESP nos germinados de brócolos tem o seu pico de atividade no 2º dia de germinação e diminui no 5º dia, pelo que haverá vantagem emcolher os germinados só a partir desse dia (Williams et al., 2008).
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Existem também outras formas de garantirmos uma maior formação de sulforafano a partir de brócolos maduros. Cozinhar a vapor durante 3 minutos, garantindo que não cortamos as flores antes de os cozinharmos, permite a formação de sulforafano, evitando o sulforafano nitrila (Wang et al., 2012).
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Outra das formas consiste em cozer a vapor os brócolos maduros inteiros durante o tempo que se queira e acrescentar no fim sementes de mostarda em pó, uma vez que estas são uma fonte estável de mirosinase (Ghawi et al., 2013). Também é possívelcombinar na mesma refeição brócolos cozidos com crucíferas cruas, como couve roxa, rúcula, rabanete, agrião ou outros. Uma das brássicas mais resistentes ao calor é o rábano Daikon. A mirosinase contida na raíz de rábano Daikon tem maior resistênciaao calor, existindo formação de sulforafano mesmo quando aquecida a 125 grausdurante 10 minutos (Dosz and Jeffery, 2013).
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Embora a forma mais eficaz de se obter sulforafano a partir de brócolos seja garantindo que exista mirosinase disponível para a hidrólise dos glicosinolatos, o glicorafano pode ser em parte convertido em sulforafano no intestino grosso pela microbiota. Cerca de 10 a 20% de metabolitos de sulforafano podem ser encontrados na urina depois de se ingerir brócolos sem mirosinase, apenas pela ação das bactérias presentes no intestino grosso (Shapiro et al., 1998).
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